quinta-feira, 25 de abril de 2013

Um museu diferente

Existem no mundo certamente muitos museus dedicados a escritores e, por consequência, a suas obras. Um museu feito por um escritor sobre um livro seu, e novidade. Orhan Pamuk é um escritor, mormente um romancista, até a última raiz de cabelo. Para mim, porém, é alguém que ajuda/estimula a pensar a disciplina histórica. Seus livros não só apresentam temas e tabus históricos ligados ao Império Otomano e a Turquia Contemporânea como também fazem refletir sobre o papel da empatia, a arte de se colocar no sapato dos outros, fugindo de preconceitos e estereótipos. Vou falar muito sobre isso numa aula que preparo sobre ele no meu próximo curso na Casa do Saber, do Rio. O escritor istanbullu também gosta de refletir sobre a relação com o tempo e daí o papel de arquivos, coleções e museus. No caso do seu Museu da Inocência, toda a questão e a relação de Kemal Bismanci e Fusun e a fixacao do primeiro pela segunda. Istambul é também um tema muito presente, e uma Istambul diferente do seu livro de memórias sobre a cidade, escrito num período ensanduichado (2002-2003) entre a redação de Museu da Inocência (2000-2007). Se nas memórias fala da cidade decadente dos anos 1950 e 1960, ainda baqueada com a perda do status de capital e perdida sobre qual deveria ser sua identidade, no Museu já trata principalmente das décadas de 1970 e 1980, sob a ótica de uma burguesia num mood melhor. O museu (fica na ruazinha Dalgiç Cikmazi, no alto a direita da Çucurcuma Caddesi, no bairro de Beyoglu) criado em cima de uma obra de ficção, acaba sendo em grande medida um espaço que trata da vida cotidiana na cidade de Istambul na segunda metade do XX. Eu fui visitá-lo certa de que só esbarraria com estrangeiros pelos seus andares, mas a verdade é que das cerca de 30 pessoas que circulavam pelo relativamente pequeno espaço enquanto eu estive lá ontem, diria que umas 25 eram turcas. Fiquei agradavelmente surpresa, porque ainda continuo ouvindo o tempo todo por aqui o quanto os turcos não gostam dele (a ultima foi um debate que teve com Umberto Eco na Bosphorus University poucas semanas atras, em que os turcos reclamaram de que o Pamuk falou mais do que o Eco, muito auto-referenciado...). Eu deixei meu exemplar no Rio por já ter lido e ser muito grande, mas quem trouxer o seu não só não paga as 25TL da entrada (equivalente a cerca de R$25,00), como ganha um carimbo no capitulo 83. Enfim, ainda estou deglutindo o que vi por lá, mas já adianto que e tudo muito interessante, sobretudo o sótão, onde ficam as edições do livro em vários idiomas, o projeto do museu (Pamuk estudou arquitetura,então o projeto é bem profissional) e o manuscrito do livro, com as cargas vazias de caneta usadas para tanto. Em grande medida devo meu envolvimento com a história e com a Turquia de uma maneira geral a leitura de seus livros e me encontro aqui justamente agora para tratar de uma comparação entre Istambul e o Rio (ia falar em 3 momentos: no XIX, quando ambas deixaram de ser capitais, 1923 e 1960, e nos dias atuais, mas o comentador, sabiamente, disse que em 20 minutos eu não daria conta e dai vou me fixar no XIX...) no simpósio da Koç University que acontece amanhã.

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