Ideias, comentários, e o que mais der na telha, sobre História Pública, História Internacional, Oriente Médio, Turquia...
terça-feira, 23 de abril de 2013
Ankara acadêmica
Ankara (em turco fala-se Ânkara e foi assim que acabei me acostumando a chamá-la) é a capital da Turquia há exatos noventa anos e, além de ser sede do governo e da burocracia em geral, é em grande parte uma cidade universitária. Alem de Bilkent, onde estudei e tenho amigos queridíssimos e dos mais competentes, destaco a Middle East Technical Universtiy (METU), Ankara University, Gazi e Hacettepe. A verdade, porém, é que devem ter umas doze universidades consolidadas, além de inúmeras pequenas e particulares que vem surgindo nos últimos anos. Hoje passei o dia com dois amigos que lecionam nas melhores por aqui. Um turco especializado em história otomana e um norte-americano expert em história dos EUA. Com eles observei o agradável dia de primavera repleto de famílias nas ruas aproveitando o feriado do "Dia da Soberania e da Criança Turca"; andei por Ulus (a parte mais histórica) e me assustei com a rapidez como antigas favelas (aqui chamadas de gecekondu, que significa "construídas a noite") foram removidas e transformadas em moradias, lojas e afins em "estilo otomano"; e descobri que tomar iogurte salgado (ayram) junto com a comida não e tão desagradável como me recordava. Conversamos também sobre as boas perspectivas acadêmicas tanto aqui como no Brasil, mas sobretudo confabulamos sobre projetos colaborativos dos mais diversos. Fiquei sabendo também do tal do "Mevlana Exchange Program", uma iniciativa bastante interessante de intercâmbio universitário corrente aqui na Turquia (eles vem chamando do "nosso Erasmus Program") que pode levar alunos ao Brasil no futuro. Um problema que temos, porém, é a questão da língua. Se as melhores universidades da Turquia como a METU e Bilkent usam inglês como língua oficial (ao que me consta, só os departamentos de Letras e Direito não usam), o mesmo não acontece no Brasil. Seria válido, talvez, seguir esse modelo turco quanto ao idioma???
Busto do Barão do Rio Branco em frente ao Centro de Estudos Latino-Americanos, da Ankara University (Foto: Monique Sochaczewski. 22/4/2013).
sábado, 20 de abril de 2013
Tres museus e um filme
Se uma pessoa só tiver um dia de visita a Istambul e quiser aprender o máximo sobre sua historia nesse dia, eu aconselharia a visitar três museus. O primeiro e, obvio, o Topkapi. Foi o principal palácio ocupado pelos sultões do XVI ao XIX e e bastante peculiar, com seus diversos pátios e uma organização essencialmente turco-islâmica (o pessoal do meu simpósio vai ter uma visita guiada privada na sexta e ando empolgadissima com a oportunidade!!). O segundo e o Dolmabahce, a meu ver um dos mais lindos do mundo. Nao canso de dizer isso! Ele já mostra a transição porque passou o Império Otomano no XIX e conjuga em sua arquitetura elementos europeus (os guias que lideram as visitas ficam desfiando um tal de "ferro vindo da Inglaterra", "cristais da Boemia", etc) com a peculiaridade otomana de ser formado por um selamlik - parte dos homens - e um harém -, das mulheres. Dolmabahce ainda serve de ponte com o período republicano, já que foi nele que Ataturk faleceu em 1938, e tem um salão tão bonito que ainda e usado oficialmente pelo governo, mesmo nos dias atuais. O terceiro museu que eu recomendaria, porem, a meu ver e chave para entender parte do que passa a Turquia hoje e se chama "Panorama 1453". Foi inaugurado em 2009, mas só consegui finalmente visita-lo hoje de tarde. Se nos primeiros o visitante vai se deparar com quase igual numero de estrangeiros e turcos, nesse ultimo sao poucos os estrangeiros (o texto e todo em turco e a tradução só e possível quando se aluga o audioguide). O publico e amplamente turco e religioso e fotografa, filma, se debruça para ver atentamente todos os detalhes da pintura panorâmica e da cenografia que retrata a tomada de Constantinopla dos bizantinos pelo "gênio engenheiro" do sultão Mehmet II, como diz o prefeito Kadir Topbas, no release do espaco. E um museu moderno, idealizado e executado por artistas turcos e que trata de um período da historia de engenhosidade e vitoria. Ele fica no sitio historico próximo as muralhas da cidade, onde de fato se deu o drama, mas e essencialmente uma interpretação contemporanea sobre o que deve ser retido daquela experiência. Fica um pouquinho longe de Sultanahmet (estação Topkapi do tram), mas a meu ver vale muitíssimo a visita. Em tempo: a lojinha e uma maravilha e super barata! Consegui comprar finalmente lá o DVD de "Conquest 1453", mega producao turca sobre o mesmo tema, lançada no ano passado. Vou correr atras de autorização por aqui e, de repente, organizo uma apresentação seguida de debate no Rio. Acho que seria bem legal!
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Em "casa"
Um hostel acadêmico. E assim que normalmente explico o lugar em que me hospedo aqui em Istambul. Trata-se de uma instituição mantida por scholars norte-americanos que conta com espaços em Ankara e aqui em Istambul, com ricas bibliotecas, calendários de eventos animada e também guest rooms para pesquisadores que de alguma forma lidem com a historia e atualidade da Turquia. Parece que ha instituições similares mantidas por holandeses e por alemães, próximos a Taksim Square, que e uma área bem central do lado europeu da cidade. A verdade, porem, e que desde que me hospedei aqui pela primeira vez em 2010, cai de amores por Arnavutkoy. Tem uma serie de antigas yalis otomanas debruçadas sobre o Bósforo lindamente restauradas e tradicionalíssimos restaurantes de peixe (já corri para o Vira Vira!). Não e do mais centrais, mas e um encanto! O legal desse tipo de acomodação, alem de contar com um preço bem acessível, e a troca intelectual que rola. Todos outros hospedes de alguma forma sao interlocutores de pesquisa. Tem historiadores, arqueólogos, internacionalistas, geógrafos, jornalistas, pessoal de Letras e Literatura. Podem acontecer desde discussões acaloradas sobre como melhor traduzir um termo do turco-otomano para o ingles, ate organizar uma viagem conjunta pela Asia Central (quase pedi para ir junto de tão legal que me pareceu!). Ja que anda crescente o interesse acadêmico de brasileiros pela Turquia (oba!), e uma boa dica para quem pretende se dedicar a serio em conhecer e pesquisar o pais e a regiao. E sempre penso que seria muito legal ter algo do genero no Rio para os muitos brasilianistas que vem acorrendo aos nossos arquivos e afins...
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Paris Oriental
Paris e daquelas cidades que agrada a todos. Tem sempre algo de interessante. Como ja constava na minha biografia a visita aos lugares "obrigatórios", resolvi focar essas minhas 48 horas na cidade-luz numa visita temática. Foquei meu interesse no que há de Oriente em Paris. Preparei um roteiro pormenorizado que meus ex-alunos que aqui encontrei ao virem logo acusaram: professora! Pois e, fiz o dever de casa de verificar horários e afins e no final deu quase tudo certo. Na quarta, ao chegar do Brasil, mesmo tendo feito uma viagem desconfortável e estar sem dormir algumas noites, deixei a mala no hotel, tomei um banho e um café forte e segui para o Louvre. As quartas o museu fica aberto ate 21:45 e dai pude visitar com certa tranquilidade a ala de arte islâmica recém-inaugurada, já na gestão Hollande. Não e exatamente recomendado fazer essa visita sem estar descansado, porque e enorme e requer atenção. De qualquer forma, foi interessante ver in loco que de fato a tal cobertura com "tapete voador" do primeiro andar da exposição faz um efeito lindo. A curadora, Sophie Makariou, havia falado de que a questão que norteou a exposição foi "O que mantinha Dar al-Islam unido?". O intuito era mostrar nos dois enormes - e classudos - andares o que ha em comum no mundo muçulmano do seculo VII ao XIX. E no campo artístico estão lá a cerâmica, os tapetes, a caligrafia, joias, mosaicos. Mesmo com inserções aqui e ali de vídeos interativos e alguma tecnologia, a exposição no geral, a meu ver, se mantém no estilo top-down desses grandes museus, como o V&A e British Museum. Quase surge um bocejo no canto da boca. A inauguração da nova ala se deu em grande medida devido ao apoio do rei do Marrocos, do sultão de Oma, do emir do Kuwait e da República do Azerbaijão e isso e muito interessante. Esta de fato o museu interessado em dar atenção a parte de sua coleção negligenciada por muito tempo? Entende que e hora de levar em conta um grande publico muçulmano que mora no pais e circula em seus espaços? Busca novos patrocinadores para projetos em uma fase de vacas magras na Europa?? Acho que parece de tudo um pouco. Comprei o album deles e vou estudar com carinho mais tarde. Certamente vou usar muito as fotografias que fiz do acervo (sem flash!) em minhas aulas. :0)
Ja na quinta, amanheci no Musee Nissim de Camondo, pertinho do delicioso Parc Monceau. Esse e um museu que as pessoas visitam normalmente interessadas nas artes decorativas do seculo XVIII, ja que e riquíssimo nesse sentido. Confesso que não dei a menor bola para esse aspecto. Meu interesse e na familia Camondo em geral. Eram banqueiros originários de Istambul que se mudaram para Paris no final do XIX, imediatamente se imiscuiram entre os banqueiros e aristocratas de Paris e, apesar de nunca abrirem mao do judaísmo, se tornaram apaixonados pela Franca, a ponto de doarem sua incrivel casa e seu acervo para o Estado. Escrevo um artigo sobre eles no momento e a historia e longa e mesmo surreal, mas para fazer curta uma longa historia: a família foi extinta em Paris. Um filho morreu como aviador na Primeira Guerra Mundial e a irma foi levada pelos nazistas junto com o marido e os filhos e morreu em Aushwitz.
Parti então para o roteiro " Le Paris Arabe Historique", andando pelo 5eme em busca da historia da ligação da cidade com o Oriente. O College de France e a Sorbonne evocam o inicio do ensino de arabe no pais e a curiosidade sobre o Oriente no seculo XVIII. A igreja greco-melquita Saint-Julien-de-Pauvre e um dos lugares mais antigos de culto de cristaos arabes na Franca (pertinho da Notre Dame). Diversas livrarias arabes ainda guardam uma tradicao de graficas e jornais em arabe publicados na Franca tendo o Oriente por vezes como alvo. So não consegui ir a mesquita, famosa por seu cha. Parti entao para o incrivel-maravilhoso-tudo de bom Instituto do Mundo Arabe. De cara amei o predio imponente com especie de arabescos por toda a fachada. Fui verificar a exposicao sobre as Mil e Uma Noites, que esta lindissima; filar o computador e conhecer a incrivel biblioteca (lotada); ir a falencia na livraria, me deliciar no cafe Noura (o kneife bate um bolao) e, principalmente, assistir a palestra do professor Eugene Rogan. Rogan e pesquisador do Centro de Oriente Medio do St Anthony's College, em Oxford, e uso muito seus textos em meu curso, sobretudo, o livro " The War for Palestine". A palestra (num frances fluente do norte-americano Rogan) era sobre a historia do mundo arabe na era das revolucoes e foi muito otimista - acho que demais - quanto ao que vem acontecendo desde 2011. O evento era aberto e estava cheio, mas não lotado. Para mim foi muito bom verificar que as discussoes que venho tendo em meus cursos estao afinadas com debates mais amplos no meio especializado e curioso ver que o fenomeno do " louco da plateia" e global. Cada um que pegava o microfone não parecia exatamente interessado em saber a opiniao do professor sobre esse ou aquele aspecto, mas em fazer um statement. Tendo a pensar que em eventos de Oriente Medio em especial nao ha como fugir disso: e um fato, uma caracteristica da area. No final pedi para Rogan autografar minha edicao recem-comprada de seu "Histoire des arabes de 1500 a nos jours" (que tem que ser traduzida para o portugues asap!) e não e que ele me disse que anda super interessado em visitar ao Brasil!!! :) Agora afivelo as malas e sigo para o Oriente, de verdade.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Sobre aulas
Obrigatórias ou eletivas, para público acadêmico ou leigo, em espaços formais ou residências. No último ano, desde que voltei da licença-maternidade para o "mercado de trabalho", minha vida tem sido uma infinidade de antigas e novas possibilidades de lecionar. Sei que no meio em que transito a norma principal é "publish or perish" e me organizo para começar a publicar este ano alguns artigos e me dedicar a uma versão em livro da tese. A verdade, porém, é que descobri depois de balzaquiana que meu coração bate por uma sala de aula mesmo. Quer dizer, por aulas, não necessariamente em salas de aula formais. Tenho tentado na medida do possível sempre inserir uma aula externa em meus cursos, ou aulas-passeio, como preferem meus alunos. E no último mês tenho tido a experiência de lecionar em residências, preparando viajantes a caminho de Israel e Turquia para que cheguem em seus destinos com algum conhecimento mais embasado da história destes, bem como com algumas dicas que dou a partir da minha vivência nestes países. Nos cursos de Oriente Médio gosto de fazer um "Arab Tour" pela Saara (é importante dizer que tenho licença de guia para fazer isso), já visitei com um grupo a Igreja Nossa Senhora do Líbano na Tijuca e já virou tradição a aula em um tradicional restaurante libanês em que discutimos o papel da culinária na memória afetiva dos imigrantes do Oriente Médio, entre outros temas. Estava pensando agora, porém, que a aula mais instigante que já fiz e, que não vejo a hora de repetir, foi uma videoconferência com estudantes de Belém, na Cisjordânia, com meus alunos da Unilasalle, ano passado. Em uma reunião de colegiado o coordenador tinha comentado que havia na sala em questão um aparelho de videoconferência que valeria ser usado. Falou-me também da parceria que tinha sido estabelecida com a La Salle da Cisjordânia (a La Salle está presente em mais de 80 países!) e que poderia me colocar em contato com um professor de lá. Contato estabelecido, aula dedicada a preparar um roteiro de perguntas a serem feitas aos alunos de lá, testes com o equipamento e eis que cedo em uma manhã de novembro passamos quase uma hora conversando diretamente com alunos palestinos muçulmanos de uma universidade católica dos territórios ocupados. Que mundo de possibilidades, literalmente!
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Novela turca
Não, não vou falar de "Salve Jorge" porque simplesmente não consigo assisti-la. Inicialmente porque estava dando aulas no horário em que vai ao ar e agora porque é justamente a hora que coloco meus filhos para dormir. Sei, porém, que contou com assessoria de queridas amigas, que conhecem muito bem a Turquia. Meu vício, na realidade, é a "novela" (na realidade, as novelas turcas seriam mais seriados, uma vez que passam uma vez por semana, e tem duração que varia de uma hora e meia a duas horas), "Muhteşem Yüzyıl" ("Século Magnífico") que trata do longo reinado de Suleiman, o Magnífico (1520-1566). Alguma boa alma disponibiliza todos os episódios na Turkweb.
OK, a questão política e a diplomacia - importantíssimas nessa fase áurea do Império Otomano - ganham menos atenção que deveriam. O foco mesmo é o harém do sultão com suas "traficadas" de então e os jogos de poder e vaidade que envolviam, sobretudo, as mães de potenciais herdeiros ao trono, em especial, Hürrem Sultan. Roxelana, como ficou conhecida no Ocidente, era uma escrava cristã oriunda da Rutênia (algo entre a Polônia e a Ucrânia), que conseguiu se casar com o sultão Suleiman e impor seu filho Selim como seu sucessor. A novela conta com a assessoria de dois historiadores, mas obviamente tem liberdade poética e abusa dela: trata-se de entretenimento afinal! É bastante cuidadosa com a direção de arte, figurino, locações, mas não pára de gerar polêmicas, inclusive com o primeiro ministro Erdoğan, que a considera desrespeitosa com importantes figuras históricas. A grande parte do público, porém, passa ao largo dessas discussões e acompanha avidamente o desenrolar da novela. Não só dessa, como de inúmeras outras: existe uma verdadeira indústria noveleira na Turquia. As novelas turcas atingem cerca de 20 países e além de angariar consideráveis recursos, têm lá seu peso no “poder brando” da diplomacia turca. Novelas como “Aşk-ı Memnu” (“Amor proibido”), “Yaprak Dökümü” (“Folhas caídas”) e, sobretudo, “Gumuş” quebraram recordes de audiência no Oriente Médio, Norte da África e ainda atraem crescente atenção nos Bálcãs e Leste Europeu. A exibição do último episódio de “Gumuş” em 2011 atraiu 85 milhões de expectadores da Síria ao Marrocos. De certa forma um subproduto é o crescente número de turistas árabes, das mais variadas classes sociais visitando a Turquia (possível de se perceber na parte do Topkapı dedicada às relíquias do Islã e na mesquita de Eyüp). Principalmente oriundos dos Emirados Árabes, Arábia Saudita e Kuait, estes turistas explicam o crescente interesse "porque a Turquia possui boa comida e que segue os preceitos do halal, além de beleza natural e ainda compartilha uma história e tem semelhanças religiosas". A isenção de vistos, a hospitalidade do povo e o bom clima também são fatores de atração, segundo o artigo "Arab tourists´ interest in Turkey increases, say tourism officials" publicado no Hurriyet Daily News, em 23 de abril de 2012. Definitivamente, não se deve menosprezar o poder das novelas...
Em tempo: para quem se interessar por trabalhos mais acadêmicos que lidem com a questão dos haréns, vale muito a leitura de "Imperial Harem", da professora da NYU, Leslie Pierce (assisti a uma palestra incrível dela, em Bilkent), e do catálogo da recente exposição "Harem: The House of Sultans".
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Israel para brasileiros (Tel-Aviv e Jerusalém)
Adoraria postar mais aqui, mas a vida anda corrida demais. Tendo em vista os inúmeros pedidos, sobretudo de alunos, a respeito de dicas de viagens para Israel, resolvi também compartilhar aqui um e-mail que tinha escrito a esse respeito para uns amigos...
Antes da viagem para Israel, recomendo leituras prévias e os romancistas Amos Oz e David Grossman são excelentes autores para se iniciar. “Meu Michel” e “Contra o fanatismo” (esse último é na realidade composto de discursos) são os meus favoritos do Amos Oz, mas sua publicação é extensa e já vem sendo traduzida diretamente do hebraico para o português nos últimos tempos, pela super editora Companhia das Letras. E o cinema de lá anda de primeira: “Lemon Tree”, “Valsa com Bashir”, “A Banda”, “Nota de rodapé” e “A noiva síria” são ótimos. Portais como do jornal www.haaretz.com, http://972mag.com, e www.jpost.com dão uma boa visão das muitas e intensas questões políticas diárias do país. Os livros sobre a história do povo judeu e de Israel são muitos, mas acho que “Israel: terra em transe”, da Guila Flint e Bila Sorj, apesar de ser da década de 1990, dá algumas indicações sobre dilemas por que passa o país. “A história do povo de Israel”, do Abba Eban”, dá uma visão mais idealizada da história; e “Muralha de Ferro”, de Avi Shlaim, é um exemplo da chamada historiografia “pós-sionista”, que revisita a história de maneira bastante crítica. Enfim, tanto cinema, como literatura, já mostram ao viajante que se trata de um país absurdamente interessante e profundamente envolvido com questões dramáticas sobre sua história, política e identidade.
Eu particularmente acho que Tel Aviv (T”A) é o melhor lugar para servir de base. A cidade tem ótima infra-estrutura hoteleira e vários atrativos. Os que recomendo em especial são: Eretz Israel Museum, Beit Hatfutsot, HaTachaná (ch tem som de rr), Neve Tzedek, Yafo e Namal Tel Aviv. O primeiro é na realidade um complexo com vários museus que tratam de arqueologia e história do que hoje é Israel. A linguagem não é das mais modernas, mas eu sempre gosto de visitar o The Alexander Museum of Postal History and Philately e ver as cartas endereçadas para “D’s – Terra Santa”. Milhares de cartas desse tipo chegam ao serviço de correios israelense e no geral são levadas ao Muro das Lamentações. Surreal! Ali do lado, em Ramat Aviv ainda fica a Universidade Tel Aviv e dentro de seu campus se encontra o Beit Hatfutsot, o Museu da Diáspora. Para se entender a trajetória das várias diásporas judaicas pelo mundo afora através dos tempos, esse é o lugar! (http://www.bh.org.il/) Eles estão passando por um processo de modernização e remodelação, mas acho que as miniaturas de sinagogas do mundo todo ainda estão lá: tem até uma em formato de pagode chinês!
HaTachaná em hebraico quer dizer “a estação” e é exatamente isso: uma antiga estação de trem restaurada e revitalizada com uma série de barzinhos, lojinhas, livraria, shows e informações aqui e acolá sobre T”A antiga... Fica em Neve Tzedek, o bairro mais bacana de T”A, a meu ver. É tipo Santa Teresa, sem ladeiras, e vale simplesmete andar por suas ruelas. Lá fica o Suzanne Dellal Dance Center (http://www.suzannedellal.org.il) que sempre vale verificar se conta com show do Batsheva (sempre que assisto a Deborah Colker, lembro deles: têm uma linguagem parecida) e o restaurante Susanna, bem pertinho. Yafo é ao lado, com um visual lindo da praia de T”A, os pães deliciosos do Abulafia (o cheiro deles quentinhos, com zatar, é uma coisa!), o famoso Mercado das Pulgas (Shuk HaPishpishim, em hebraico), várias galerias de arte, e o restaurante “Hazaken Ve Hayam”, que é um dos melhores da região para comer peixe e frutos do mar. Em Yafo fica também o espaço do Mayumana (http://www.mayumana.com), uma espécie de Stomp israelense (grupo que junta percussão e dança) que vale assistir. Por fim, Namal Tel Aviv (Porto de Tel Aviv). A cidade seguiu a tendência mundial de reformar seu porto, criando uma charmosa área com restaurantes, bares e mesmo lojinhas (se não me engano é mais de decoração), e é um bom lugar para ver o pôr do sol. Não fui ainda ao "Children's Museum", mas todos que já foram amaram!
Em Jerusalém, além da óbvia visita à Cidade Velha, onde fica o Muro das Lamentações, a Via Dolorosa e o Domo da Rocha (recomendo o livro “Jerusalém”, da Karen Armstrong, como introdução), tem o Yad VaShem ( Museu do Holocausto) e o The Israel Museum, entre outros. Uma vez fiquei hospedada no bairro cristão da Cidade Velha e foi uma experiência bem legal acordar lá dentro, mas no geral os turistas ficam fora das muralhas, em hotéis para todos os bolsos. O Yad VaShem é das experiências mais tristes. Começa com uma enorme floresta, com o nome dos não-judeus que salvaram judeus quando da guerra (o brasileiro Souza Dantas está entre eles. Caso haja interesse, meu amigo Fábio Koifman escreveu sobre ele em “O quixote nas trevas”, publicado pela Record). É enorme e tem muita informação sobre o drama dos judeus (entre outras vítimas, como ciganos, homossexuais, doentes mentais, etc) durante a Segunda Guerra Mundial. O Children’s Memorial, porém, é o lugar que mais me toca. A cada passo, o nome, a idade e o local de origem de muitas das quase um milhão e meio de crianças judias mortas.
O The Israel Museum, por sua vez, é conhecido por ter um “santuário do livro”, com manuscritos do Mar Morto ainda sendo estudados e lá exibidos, mas a verdade é que sua coleção de arte moderna e contemporânea é maravilhosa! Tem Brueghel, Rembrandt, Magritte (como "O Castelo dos Pirineus", da imagem), Matisse, e Modigliani, entre outros, além de exemplares da arte contemporânea israelense, que é vibrante. Enfim, eis algumas dicas de lugares a serem visitados em Tel-Aviv e Jerusalém...
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